sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crônica Inédita.

Hip Hop, Funk.... na mesma periferia.
Por: Alessandro Buzo

Hoje em dia, um assunto quando é eleito pela mídia, só se fala nisso por semanas.
O assunto do momento são os chamados "rolezinhos", encontro de jovens que curtem funk ostentação. Até ai, normal.... mas escolheram como local desses rolezinhos os shopping´s centers da cidade, templo do consumo e da "família" brasileira, a praia do paulistano.
O primeiro encontro, que teve mais gente envolvida foi no Shopping Metrô Itaquera, anexo ao metrô, fácil acesso.
De lá pra cá, teve liminar impedindo encontro, PM expulsando os jovens de estabelecimento, denúncias e muita, muita mídia.
O que me levou a escrever essa crônica foi uma matéria que vi na TV e outra que li no portal G1.
Na TV vi jovens de 13 anos explicando que são FAMOSINHOS (palavras deles) na internet, redes sociais.
Ai eles juntam centenas, ou milhares de FÃS no FACE. O Rolezinho nada mais é do que esse FAMOSINHO que convocou seus FÃS pra conhecerem ele pessoalmente. Onde ? Nos shoppings.
O menino que falava e se dizia FAMOSINHO, deve de ter uns 13 anos de idade, cara de criança total.
Todos eles sonham em se tornar um cantor de FUNK, deixar de ser FAMOSINHO e se tornar FAMOSÃO.
Na matéria do G1, jovens de Guaianazes e Jardim Nazaré, extremo leste de SP, que frequentam os ROLEZINHOS (desses lugares citados, trens e ônibus desembocam no METRÔ ITAQUERA). Esses jovens (15 à 19 anos), dizem que vão ao ROLEZINHO se divertir, porque na sua quebrada não tem opções de lazer. Isso é FATO.
Além de se divertir eles querem beijar umas mina. E mais de um na reportagem diz que vai também pra comer LANCHE NO MC DONALD´s.
Teve um que disse que OSTENTAÇÃO é só um sonho (que pretende realizar virando funkeiro), mas hoje o que ele tem é um TÊNIS MIZUNO de R$ 1.000,00 que comprou a prestação, provavelmente num shopping.
AGORA minhas conclusões.....
Acho, pelo que li, vi e assisti na TV, além do que eu vejo pessoalmente no dia a dia das quebradas, seja no Itaim Paulista (onde cresci e vivi a vida toda), ou noutra onde constantemente gravo pra TV.
Que essa garotada de 12 à 18 anos que são o PÚBLICO do FUNK, são jovens que cresceram vendo muita TV, vendo seus pais trabalhando de sol a sol (saem cedo demais e voltam tarde e cansados demais a noite), dando pouca atenção pro filho que cresce, cheio de dúvidas e incertezas.
Outro fator é que o pai que trabalhou a vida toda (e ainda trabalha) e nada tem, está deixando de ser o SUPER HERÓI desse jovem, ele mesmo, pode no FACE, ficar FAMOSINHO, ganhar dinheiro e não viver a mesma vida, se orgulha do pai, mas não quer aquilo pra ele.
Vejo essa garotada, sem um direcionamento pra Deus, família, cultura, estudos, futuro.
Querem o AGORA, o hoje....
Quase 100% desses jovens não lê livros.
Com esse cenário, se multiplica o funk e os funkeiros na quebrada, na rua da minha casa no Itaim Paulista é funk nas casas, nos bares e nos carros. Vez em quando rola até um pancadão com tudo que se tem direito no inferno, bebida, droga, mulher e o direito de abraçar o capeta. LIBERDADE.
Porque no título dessa matéria citei o Hip Hop.
Esse público gigantesco é filho de uma geração que curte RAP, SAMBA, REGGAE...
Mas enquanto eles cresciam (de 2000) pra cá, o RAP estava MUITO MAIS PREOCUPADO com outras coisas do que em FORMAR PÚBLICO JOVEM. Quem fez um pouco desse trabalho foram os SARAUS, porque os RAPPERS deixaram a desejar.
Perdemos uma geração de jovens pro Funk porque no RAP NADA PODE.
Mano, no Hip Hop tem muita gente te POLICIANDO e de polícia o moleque da quebrada ta de saco cheio, quando mais de gente que nunca fez porra nenhuma pra eles, dizendo o que pode e o que não pode fazer.
Ele quer mais é ser FAMOSINHO.
O Hip Hop e principalmente o RAP, saiu muito (por anos) da quebrada, teve um tempo que só nas casas noturnas (pagas, longes e caras) tinha evento de RAP.
O grupo A, B, C, D..... ia lá na casa noturna, até ai é TRABALHO. Mas esqueceu demais de continuar FALANDO e FAZENDO pela SUA QUEBRADA.
Dando atenção pra molecadinha da sua comunidade, ser o REFERÊNCIA pra ele. Agora que o cara ficou famoso, só é VAN parando na porta.
Faltou (eu vi, ninguém me contou) isso. Dar atenção pra molecada que crescia, filho dos cara que eram (ou são) seus fãs.
O RAP não teve isso. Cativar o jovem que não cresceu nas ruas de terras do Itaim Paulista como eu, ele cresceu no mesmo Itaim Paulista, mas a rua já era asfaltada, tem TV a GATO, INTERNET.
O moleque cresceu ON LINE, no MSN, ORKUT, FACE.
Agora todos tem sua câmera fotografica e tira fotos deles mesmos e postam.
E o RAP ainda está no TEMPO de dizer o que pode e o que NÃO PODE PRINCIPALMENTE.
Tem um MC (prefiro não citar um nome nesse texto, mas todos sabem quem é) que está no BBB.
Perdesse HORAS debatendo se devia ter ido, ou não.
Pergunta pro FAMOSINHO se ele queria estar no lugar desse MC ?
Deixa o cara ter o direito de fazer a opção dele, de ir, de representar.
Se vai ser bom pro futuro dele, é problema dele, vai que esse futuro seja milionário, ele tentou, era 1 em 20 chances, bem mais fácil que a MEGA DA VIRADA.
Deixa o cara, a vida dele. Só ele sabe as contas que tem pra pagar.
Mas ficam debatendo isso, aquilo, se era, se podia, se representou, se amarelou, se é um vendido.
Quem cria isso, ou quem criou esse NADA PODE DO RAP, fez isso em outra época, outro SÉCULO, nos anos 80, acorda gente, estamos em 2014, agora é 4G.
Nem criou isso por mal, era outra época mesmo. Não tinha INTERNET na quebrada, no celular dos jovens, hoje tem.
Mas venho os anos 2000, 14 anos se passaram desde que o mundo não acabou como havia dito Nostradamus ou sei lá quem mais.
E muita gente ainda segue essa CARTILHA de NÃO PODE ISSO, NÃO PODE AQUILO.
Isso afastou essa geração do HIP HOP e eles encontraram o FUNK onde tudo pode e mesmo sem CANTAR, você pode ser um FAMOSINHO e bombar, lotar um shopping, dar uns beijo e comer no MC DONALD´S, tudo isso do seu celular diretamente de Guaianazes, Itaim Paulista, Pirituba, Capão Redondo, Jardim Brasil.
Esses jovens que se multiplicam dia a dia, poderiam ser uma legião do RAP, mas querem mais é se divertir, ir no shopping.
Teve um monstro sagrado do RAP que foi na plim plim esses dias e teve nas redes sociais, pessoas chamando ele de VENDIDO, ignorando TODA A TRAJETÓRIA da pessoa, tudo que ele já fez e ainda faz pelo movimento, nas redes sociais, uns tão ligados nos perfil dos FAMOSINHOS e os mano do RAP, tão tudo falando mal de quem foi na TV, quem cantou com BELTRANO do Rock, com ciclano do sertanejo. NÃO PODE PORRA.
Enquanto isso vi esses dias na TV, um desses astros do sertanejo, o cara tem Porche e AVIÃO PARTICULAR. "Todo artista" (que estoura um sucesso) da música fica rico, em todo segmento musical, até no FUNK, menos no RAP, porque ? No RAP GANHAR DINHEIRO É SE VENDER.
Um MC disse (esses dias) que porque não pode se tornar um milionário ?
E teve nas redes sociais gente PURITANO PRA PORRA dizendo. Enquanto os jovens passam fome nas quebradas, vc vem me dizer isso.
Mano, os jovens não tão mais nessa de coitadinho não, eles tão é querendo beber ABSOLUT, Black Label, ter CARRO, TÊNIS. Bombar nas redes sociais, ser FAMOSINHO e se tudo der certo, ser mais um FUNKEIRO FAMOSO e ganhar DINHEIRO.
Enquanto isso no nosso querido, amado hip hop, ainda estamos na época do NÃO PODE ISSO, NÃO PODE AQUILO, NÃO PODE IR NA TV. E com isso nossa mensagem é passada cada vez pra menos gente, a maioria ta ouvindo FUNK.
Vamos acordar, evoluir.... senão, na proximas gerações seremos só nos mesmos de hoje, tudo veinho e dizendo: - NÃO PODE ISSO, NÃO PODE AQUILO.
Teve MC famoso de RAP declarando e tornando público que disse NÃO pra mídia e a FIFA. Ótimo, que tenham essas pessoas. Elas tem o direito de NÃO IR, NÃO QUERER.
Só não podemos é dizer que quem foi é VILÃO e quem não foi é HERÓI.
Ou vice versa....
Temos que voltar nossa atenção pra quebrada, só a CULTURA, ESPORTE e EDUCAÇÃO podem combater a VIOLÊNCIA.
Me tire da sua lista, eu posso tudo que eu quiser .... a VIDA, CARREIRA e CONTAS PRA PAGAR são minhas. Deixa que da minha vida, cuido eu.
O RAP precisa sair dos anos 80 e enfim, chegar ao século XXI.

Alessandro Buzo é escritor, cineasta, militante da cultura Hip Hop e apresentador de TV, nascido e criado no Itaim Paulista no extremo da zona leste.

www.buzo10.blogspot.com
TWITTER: Alessandro Silmara Alessandro Buzo

Link da matéria do G1

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/01/rolezinho-nas-palavras-de-quem-vai.html

5 comentários:

  1. TUDO ISSO É RESULTADO DE 28 ANOS DE UM PSEUDO GOVERNO QUE SE DIZ SOCIALISTA , APENAS PRA SE PERPETUAR NO PODER E NÃO INVESTE NAS PERIFERIAS , PORQUE NAS CENTROS , NAS REGIÕES MAIS ABASTADAS , O CAPITAL FAZ O DEVER DE CASA E NAS PERIFERIAS ONDE O GOVERNO DEVERIA DISTRIBUIR AS ARRECADAÇÕES E SE DIGA DE PASSAGEM , VULTUOSAS ARRECADAÇÕES , NADA INVESTE E A MÍDIA CHAPA BRANCA , PELEGA PÔE CULPA NO CAPITAL , NA SOCIEDADE QUE PRODUZ E JÁ PAGOU , JÁ CONTRIBUI PARA O BEM COMUM E QUE OS POLÍTICOS EMBOLSAM DESVIAM PARA OUTROS FINS QUE DE SOCIAL NÃO TEM NADA !

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  2. Falou e disse....... Que saudade dos anos: 2000, 2001, 2002 que o RAP era forte nas quebradas o pessoal lotava os shows dos grupos nacionais, fosse onde fosse: nas quebradas ou nos grandes ginásios..... Absorvia as idéias, curtia, vivia...... agora os tempos são outros..... Salve Buzo!

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  4. Amigo Buzo,
    Ainda não tive o prazer de lhe conhece-lo pessoalmente, gosto muito do trabalho que você faz pela periferia, colocar na pauta da grande mídia os talentos, fazeres e saberes da periferia, que só retrata desgraça, deixo meus parabéns. Como você também fui formado pelo Hip Hop, posso dizer que ele me abriu as portas para que eu me tornasse quem me tornei hoje, e uma das maiores coisas que aprendi no Rap foi o poder da Critica entendendo por critica o ato de apontar erros, falhas ou pontos a serem melhorados. Em sua crônica observo alguns pontos a serem questionados, a fim de que com isso possamos ampliar o debate e não de policiar seu pensamento, cujo como afirmei anteriormente respeito.
    Primeiramente gostaria de manifestar minha opinião sobre o “Rolezinho”, não concordo e nem defendo os valores que sustentam a ideia do “Rolezinho”,(no decorrer do comentário, vou expor meu ponto de vista),mas defendo cegamente o direito dessa juventude ter a liberdade de realiza-lo. Sou contra os posicionamentos racistas e até fascistas que vieram à tona pós os últimos acontecimentos.
    Vivemos em uma era em que o ter é mais valorizado que o ser, podemos observar isso nos mais variados segmentos da sociedade hoje inclusive sob a pecha da “prosperidade”, inúmeros pastores estão enriquecendo a custa do suor de nossas irmãs e irmãos, e no meio artístico não é diferente. O Funk ostentação defende nada mais nada menos que o acesso ao consumo de bens de luxo(mesmo que alguns bens que eles almejam não seja tão de luxo assim).
    Trabalho com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e vejo todo dia a molecada entoar essas canções como mantras, pois desejam consumir, também querem fazer parte da mesa que desfruta do banquete do consumo, entretanto nossos corpos pobres e em sua maioria negros, ofende quando adentra e profana os templos do consumo, seja em Itaquera ou no Jardim Paulistano. Será que todos nós podemos consumir bens de luxo?Será dado a qualquer cidadão as oportunidades de enriquecer? Ou será que os casos de sucesso e prosperidade são uma exceção? Vivemos em um país onde a desigualdade é gritante, quando pegamos um avião, quantos pobres e negros identificamos?Ouso a dizer que às vezes podemos ficar horas no saguão do check in e não veremos um irmão ou irmã, ops como passageiros, não carregando caixas ou limpando os espaços é verdade que não estamos mais nos anos 80, aumentou nosso grau de consumo, mas as desigualdades será que se reduziram pelo menos pela metade?Segundo dados da ultima pesquisa do IBGE a resposta é não, pois nela demonstra que 10% dos mais ricos detêm 42% dos rendimentos do país, o que significa de acordo com a mesma pesquisa que 40% dos mais pobres tem que dividir entre si 13,3% da renda nacional, e nem vou entrar na questão racial aqui, apesar dela ser central na manifestação dos preconceitos acerca dos “Rolezinhos”.
    Trouxe os dados sobre desigualdade para podermos analisar sobre quais bases materiais estamos analisando o fenômeno, primeiramente será que todos nós podemos fazer parte do mundo do consumo ostentação? Será que a evolução do Hip Hop passa pelo culto ao consumo? Concordo que temos que fazer nossa meia culpa em relação à tomada de assalto que o funk deu nas periferias, entretanto penso que não foram os “rappers” de militância(ingênua ou não)que com suas criticas distanciaram-se da quebrada, mas diria que foi certa “profissionalização” aliada a uma elitização que você chega a mencionar em sua crônica que distanciou a molecada da periferia do Hip Hop
    Preocupa-me muito os rumos que iremos tomar no movimento daqui para frente, não sou contra a mídia, mas é importantíssimo saber que ela não é imparcial e que por trás das câmeras, papeis e sites, existem interesses privados de certos grupos sociais, por isso não podemos ocupar os espaços midiáticos de forma ingênua e preciso saber que no limite os interesses da periferia se chocam com os interesses das elites.
    Esses são alguns pontos que gostaria de deixar para contribuir com a reflexão por você proposta.Carlos Alberto/Educador Social

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  5. Salve Buzo!

    Mano, tenho acompanhados seus os textos e acredito que essa crônica nos atiça uma reflexão necessária. Sei que uma galera quer dar porrada nas estratégias que cada um toma, mas não está disposta a discutir as mudanças, as possibilidades e respeitar as escolhas.

    Gosto quando leio textos que provocam nesse sentido: pra discussão de uma situação e não pra dizer quem tem razão, quem é traidor, quem faz mais, quem faz menos, pois sem reflexão, ambos os lados caem, ou seja nós caimos, você sabe disso.

    A gente já conversou sobre isso e lembro que a conclusão que chegamos é que nós, os movimentos culturais da periferia, criamos poucos diálogo entre os nossos e por isso quando as discordancias aparecem a tendencia é tacar pedra no espelho.

    Na literatura, as palavras podem contribuir nesse sentido, de expor as reflexões que a roda nem sempre está afim de encarar. Acredito nisso! Porque exaltar as conquistas é até fácil, mais escancarar as contradições, que demonstra amadurecimento, é bem mais difícil.

    Valeu pelo texto e pela reflexão.

    Grande Abraço!

    Michel Yakini

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